SOMOS AMÉRICA

ciclo CURTA E DEBATA

SESC Ipiranga

dias 18, 19 e 20 de setembro às 19h30 - Rua Bom Pastor, 822 ­ Ipiranga, São Paulo/SP

ENTRADA FRANCA

Ciclo de projeções de curtas-metragens latino-americanos seguidos de debates temáticos junto ao publico.

“Esta urgência do Terceiro Mundo, esta impaciência criadora do artista produzirá a arte de mais de dois terços da população mundial.”

Santiago Álvarez

 “O sub-desenvolvimento é um fato na América Latina. O cinema de seus países contribui para esta situação ao participar desta super-estrutura promovendo uma imagem falsa da sociedade, escamoteia o povo ao não gerar uma imagem real desse povo”, a frase é de Fernando Birri – nome fundamental do cinema latino-americano, fundador a Escola de Documentaristas de Santa Fe em 1956 (a primeira da América Latina) e um dos mentores Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, Cuba (EICTV). Os meios de midiáticos são supostamente os mais ativos e eficazes instrumentos de expressão popular e o cinema, a dramaturgia ficcional e documental, uma ferramenta de informação, reflexão, registro e questionamento histórico. No entanto, através do tempo vemos acentuar-se na América Latina a má distribuição de renda, que por sua vez, e não coincidentemente, caminha junto ao monopólio dos meios de comunicação. Birri parte do princípio que o terceiro mundo precisa de mudanças urgentes e acredita que para tal é imprescindível o auto-conhecimento, por isso propõe documentar o sub-desenvolvimento. Idealiza um cinema feito desde a realidade social, que deve expressar uma realidade existente e não uma utopia ou um desejo de como gostaríamos que essa realidade fosse. É preciso representar os  valores humanos, seus esforços, o trabalho, suas alegrias, desejos,  frustrações, lutas e sonhos. É assim que a miséria e a mendigagem de crianças à margem de uma ferrovia na província de Santa Fé aparece poeticamente, com ludicidade e dinâmica no curta Tire Dié. Jogue dez (centavos) são os gritos reais das crianças que correm ao lado do trem implorando moedas aos viajantes adinheirados. A situação, denúncia de pobreza extrema, não é vista com pena ou menosprezo como é habitual nos telejornais e relatos sobre a difícil vida dos miseráveis. As crianças, brincam, se aventuram, são valentes, seres-humanos criativos e corajosos, apesar de suas limitações sociais. Tudo captado da própria realidade à margem da ferrovia. O manifesto da Escola de Documentaristas de Santa Fé dialoga harmonicamente com a Estética da Fome e da Violência proposta por Glauber Rocha, que por sua vez é aceita e incorporada por diversos cineastas, fora do Brasil também. O movimento é conjunto, coletivo, e o documentário se torna parte fundamental deste cinema realista. As obras cinematográficas são elaboradas com objetivo de transformar o espectador em ser ativo, pensante e participativo, e não apenas contemplativo, como amiúde ocorre nos meios de comunicação de massa. Segundo Glauber Rocha “a fome é o nervo da sociedade, trágica originalidade do subdesenvolvimento”. A Estética da Fome e da Violência pensa o jeito subversivo do meio marginal. “Porque o interlocutor estrangeiro pensa a miséria como um dado formal de seu campo de interesse, mas nós latino-americanos vivemos essa realidade em nosso cotidiano. Ter pena do pobre é cair no campo da assistência social, não devemos dar brinquedos às crianças carentes no natal e se possível, melhor que dar comida ao pobre, é dar consciência".

A ditadura, em seus mais de 20 anos no poder,  ordenou e cedeu a dedo as concessões de nossa mídia. A democracia voltou, a TV a Cabo chegou e  a realidade não mudou, quem já era forte, ficou ainda mais, só isso. O Brasil conta hoje com o modelo neoliberal de industria cultural, onde prevalece um camuflado e evidente monopólio de mercado, não apenas nas salas de cinema, mas nos meios de comunicação televisa e na indústria fonográfica. Isso, sem falar que o próprio investimento público, através das leis de incentivo à cultura, é na realidade praticado pela iniciativa privada. Por outro lado, as pessoas parecem atentas a isso. É um fenômeno atual que pode ser visto por exemplo no sucesso que os festivais de cinema independente, curta-metragem, documentário e vídeo vem ganhando nos últimos anos Brasil afora, tanto nas capitais como no interior dos estados de norte a sul do pais. Ou seja, há uma busca crescente pelo produto que simplesmente não chega aos meios de comunicação de massa. Para termos uma idéia dessa realidade, segundo números divulgados pela Associação Cultural Kinoforum em seu Guia Brasilerio de Festivais de Cinema e Vídeo, em 2006 foram realizados no território nacional 72 festivais de cinema e vídeo com estas características. O público foi de cerca de 2,5 milhões de espectadores em mais de 20 mil exibições realizadas. Em apenas 1 ano, em 2007, esse numero subiu de 72 para 111 festivais. Ou seja um aumento de mais de 50% em um único ano. Em 1995 o festival Internacional de documentários de São Paulo, É Tudo Verdade, recebeu 45 inscrições nacionais. Na edição de 2007 foram mais de 480 inscrições. E o dado que talvez seja mais importante aponta que de toda produção nacional de curtas e médias metragens, apenas 19% das obras contaram com apoio de leis de incentivo à cultura. Qual seria o motivo desse impressionante crescimento? Talvez seja importante pensar acerca da recente pesquisa divulgada pelo sindicato dos jornalistas do Rio Grande do Sul que revela que no Brasil apenas 45% das pessoas acreditam que a imprensa é confiavel, dado que revela uma impressionante descrença na mídia. Este enorme percentual descrente seguramente busca informação pelas vias chamadas alternativas, e que na verdade não seria uma definição errada se as chamássemos de livres. Com o objetivo propiciar informação, arte e cultura a esse crescente público surge o ciclo de projeções seguidas por debate Curta e Debata, dentro do projeto Somos América. Serão exibidos documentários que trazem relatos de importantes episódios contemporâneos do continente sul-americano. Chile Top Ten mostra como por traz do atual “milagre econômico” chileno, que aparentemente coloca o pais no patamar de dono da mais bem sucedida economia da América Latina, há uma intensa entrega dos recursos naturais do pais e aumento vertiginoso da má distribuição de renda. KollaSuyo pensa sobre os motivos históricos e sociais que culminaram na insurreição popular boliviana que ficou conhecida como A Guerra do Gás, onde  a população exigiu do estado a nacionalização do Gás Natural do pais. O Espetáculo Democrático retrata a atualidade política brasileira, o significado e atuação do governo de base esquerdista de Lula e Argentina Acorralada reflete sobre quais são as razões que levaram o país ao colapso econômico do corralito de dezembro de 2001 - quando foram confiscadas todas aplicações bancarias do até então dolarizado peso argentino, e o dinheiro foi devolvido a seus donos apenas 10 meses depois e com uma desvalorização de mais de 60% de seu valor original. Mas, não apenas no âmbito sóciopolítico os paises latino-americanos se conectam e talvez não seja exagero dizer que a arte é a principal riqueza da região. O curta boliviano Zapana Amukin Kana retrata a obra e a identidade de um sensível escultor de pedras do altiplano boliviano, enquanto O Coruja sobe os morros cariocas para chegar onde "a coruja dorme" e conhecer quem são os compositores, na maioria das vezes anônimos, que emplacam verdadeiros sucessos nacionais do gênero na voz de Bezerra da Silva, um verdadeiro garimpeiro de composições. Floreados do Requipe, também no Rio de Janeiro, é um curta de linda plasticidade, captado em super-8, que passeia pelo movimento cultural carioca que acontece durante o carnaval, mas desvencilhado da festa das escolas de samba. Por fim, o curta extraído do primeiro corte do ainda em fase de montagem média-metragem Flores Negras propõe uma crônica musical que permeia características de distintos gêneros tradicionais e alguns dos importantes episódios da história contemporânea de Brasil, Argentina e Chile, como o embate entre a PM e o PCC em São Paulo em maio de 2006, quando as forças do estados executaram mais de 400 “suspeitos” em 3 dias. Na abertura do ciclo de Debates assistiremos um trecho do longa Zah, lo Viejo y lo Nuevo, que é o mais recente trabalho de Fernando Birri, realizado junto a seus alunos da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, Cuba (EICTV). Trata-se de um recorte com trechos marcantes da cinematografia latino-americana (onde está presente parte do curta Tire Dié, citado no início do texto), o que permite ao espectador vislumbrar um mosaico composto pelas diferentes formas de expressões humanas e artísticas da região.

Por Pedro Dantas

 

18 de setembro às 19h30

Convidado para o debate: Martín Mirol, músico, bandeonista argentino que desde os 13 anos de idade vive em São Paulo, arranjador da Orquestra Típica de Tango de Puro Guapos (formada por músicos brasileiros e que se apresentou no PRJ Somos Amércia). Compositor da trilha sonora original do documentário KollaSuyo.

 

Zah!, lo viejo y lo nuevo, de Fernando Birri

(Cuba/Argentina, 2006, trecho de 15 min)

O cineasta argentino, fundador da primeira escola de documentaristas da América Latina, em 1959 em Santa Fé na Argentina, e um dos mentores da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (EICTV), Cuba, faz, através deste filme, um recorte com trechos marcantes da cinematografia latino-americana, o que permite ao telespectador vislumbrar um mosaico composto pelas diferentes formas de expressões humanas e artísticas da região.

Contato: fbirri@ciudad.com.ar

Debate: o que é América Latina?

 

Zapana Amukin Kana, de Edwin Willca Gutiérrez

(Bolívia, 1996, 12 minutos)

O documentário resgata a obra e a vida do artista plástico boliviano Zapana Amukin Kana, um escultor que tem como matéria prima as pedras do altiplano andino.

Contato: tercermundo03@hotmail.com

Debate: cultura regional

 

KollaSuyo p.II: A Guerra do Gás, de Pedro Dantas

(Brasil / Bolívia, 2006, 30 minutos)

No ano de 2003 aconteceu na Bolívia a insurreição popular que ficou conhecida com A Guerra do Gás. A população foi às ruas manifestar repúdio contra as políticas econômicas neoliberais adotadas pelo então presidente Gonzalo Sanches de Lozada. As forças militares reprimiram as manifestações e regaram de sangue e mortos as ruas de El Alto e La Paz. Assim mesmo o povo não recuou, exigiu a renúncia do presidente e a nacionalização do Gás Natural no pais.

Contato: sussuaranafilmes@yahoo.com.br

Prêmios: Prêmio Walter da Silveira de Melhor Vídeo da XXXIII Jornada internacional de Cinema da Bahia

Prêmio de Melhor Filme da Mostra do Filme Livre 2007, Rio de Janeiro

Prêmio Especial de Menção Honrosa de documentário no 10º Festival de Cinema de Curitiba

Debate: O que é a nacionalização de indústrias privadas, seus prós e contras.

 

 

dia 19 de setembro às 19h30

Convidado para o debate: Cristian Cancino, jornalista e documentarista chileno, residente em São Paulo desde os 5 anos de idade, diretor de Chile Top Ten e co-diretor de Argentina Acorralada.

 

Chile Top Ten, de Cristian Cancino

(Chile / Brasil, 2005, 25 minutos)

O país que nas palavras de seu Ministro da Economia é “top ten” da economia mundial implica seu povo-raiz, o Mapuche, e sua mãe terra, Ngulumapu, ao servilismo de “la razón o la fuerza” que ostenta seu panteão azul, vermelho e branco. Nas cidades a gente da terra, Mapuche, luta contra a truculência da polícia, herança da ditadura de Pinochet, na TV e no Palácio ministros comemoram a ganância. Nos bairros o pessoal do Hip Hop conscientiza.

Contato: ccancinodoc@yahoo.com.br

Debate: Representação popular nos estados democráticos.

 

O Coruja, De Márcia Derraik e Simplício Neto

(Brasil, 2001, 15min)

A relação de Bezerra da Silva com seus compositores anônimos, garimpados por ele "onde a coruja dorme", nos morros cariocas e na baixada fluminense. Daí surgem sambas feitos por trabalhadores, crônicas cáusticas mas bem-humoradas de gente simples conta seu dia-a-dia nas músicas do samba.

Prêmios: Melhor Curta - Júri Popular no Festival do Rio BR 2001 / Prêmio da Crítica no Festival do Rio BR 2001 / Prêmio de roteiro Riofilme no Concurso de Roteiros RioFilme 1998 / Melhor Curta no Festival de Cinema Brasileiro de Miami 2001 / Melhor Documentário em Curta-metragem no Festival de Cuiabá 2001 / Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado 2001 / Troféu Cine Mambembe no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2001 / Melhor Documentário no Vitória Cine Vídeo 2001 / Melhor Fotografia no Vitória Cine Vídeo 2001    

Contato: Tel: 55 21 2951167

E-mail: marcia@antenna.com.br ou simpli@antenna.com.br

Debate: Arte popular e cultura de Massa.

 

Argentina Encurralada, de Pedro Dantas e Cristian Cancino

(Argentina / Brasil, 2002, 25 minutos)

O documentário reflete sobre quais são as razões que levaram o país ao colapso econômico do corralito de dezembro de 2001 - quando foram confiscadas todas aplicações bancarias do até então dolarizado peso argentino, e o dinheiro foi devolvido a seus donos apenas 10 meses depois e com uma desvalorização de mais de 60% de seu valor original.

Prêmios: Melhor Vídeo e Melhor Reportagem da TV Universitária no Festival Gramado Cine Vídeo de 2003

Contato: sussuaranafiles@yahoo.com.br

Debate: Conhecemos a história latino-americana?

 

 

dia 20 de setembro às 19h30

Convidado para o debate: Guilherme César,brasileiro, paulista, profissional de larga experiência em realizações de curtas-metragens e documentários, diretor do documentário O Espetáculo Democrático.

 

O Espetáculo Democrático, de Guilherme César

(Brasil, 2004, 40 minutos)

A partir do registro da posse do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vídeo reflete sobre os últimos 15 anos de nossa história política. O “Brasil democrático” é discutido através de imagens de campanhas eleitorais, entrevistas com parte da velha e da nova burocracia estatal, marqueteiros e brasileiros envolvidos em diferentes movimentos sociais. Qual é o desafio da sociedade brasileira frente ao primeiro governo supostamente de esquerda, popular e até socialista?

Prêmios: Melhor Filme da mostra do Filme Livre! 2006, Rio de Janeiro

Menção Honrosa de Documentários, Festival Internacional de curtas do Rio de Janeiro, 2005

Contato: guiccesar@yahoo.com

Debate: A democracia no Brasil

 

Floreados do Repique, de Gabriela Greeb

(Brasil, 2000, 20 minutos)

Os territórios sonoros do Rio de Janeiro durante o carnaval.

Prêmios: Melhor vídeo nacional e Melhor Trilha Sonora – Festival de Cuiabá 2000.

Contato: homemadefilms@uol.com.br

Debate: Resistência cultural.

 

Flores Negras, de Pedro Dantas

(BR / ARG / CH / BOL, 2007, 15 minutos - exibição de primeiro corte em pré-estréia)

Através de gravações ao vivo e acústicas o documentário cria uma crônica musical que permeia características de distintos gêneros tradicionais dos países do cone sul da América Latina: capoeira, choro, tango, morenada, vidala, andina, mapuche e outros. De forma paralela às apresentações musicais, o filme relata alguns dos mais importantes episódios contemporâneos da história dos paises visitados: Brasil, Argentina, Chile e Bolívia, além de retratar características geográficas e sociais destes lugares.

Contato: sussuaranafilmes@yahoo.com.br

Debate: Onde existem conexões e diálogos entre os povos latino-americanos?

 

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