Brasil e brasileiros no olhar de Thomaz Farkas
Por Cristian Cancino

Diz-se que Thomaz Farkas, 80, é um dos inventores da fotografia moderna brasileira, ao lado de Geraldo de Barros e German Lorca. "Fotógrafo só é artista se chamam ele de artista. Eu não sou", desdiz o autor das mais de 100 imagens que estão em exposição na Pinacoteca do Estado.

A mostra Brasil e Brasileiros no Olhar de Thomaz Farkas, com curadoria de Diógenes Moura, também ilumina uma parte pouco conhecida do trabalho do fotógrafo. Na série de imagens, captadas entre 1968 e 1974 no Norte e Nordeste brasileiro, Farkas, que ganhou notoriedade por sua obra em preto-e-branco, usou filme Kodachrome em cores. Em vez de procurar compor geometricamente a cena fotografada, vê-se um registro de viagem em que prioriza a figura humana - dos povos ribeirinhos que habitam a região amazônica aos anônimos foliões do carnaval baiano.

Farkas não lembra os nomes das pessoas que clicou. Afinal, "uma imagem pode substituir uma biografia inteira". Para o final de agosto a editora Cosac Naify prepara um livro complementar à exposição com 84 imagens em cores e 70 em p&b e textos analíticos de Rubens Fernandes Junior, Augusto Massi, Alvaro Machado, Rosely Nakagawa e Diógenes Moura. O título provisório do livro é Thomaz Farkas.

Abaixo, o fotógrafo fala da viagem que gerou as fotografias da mostra - expedição feita a convite do zoólogo e compositor Paulo Vanzolini - e sobre sua experiência no cinema documental, que ficou conhecida como Caravana Farkas no final dos anos 60.

Em que contexto foram realizadas as imagens da exposição?


Isso aí é o seguinte: o Paulo Vanzolini, que não é só autor de grandes músicas, mas é um zoólogo famoso internacionalmente, convidou a mim e ao Geraldo Sarno, que trabalhou comigo em muitos filmes, para viajarmos juntos numa expedição ao rio Negro. Nós resolvemos levar equipamento para ficar com ele duas ou três semanas subindo o rio. Éramos Geraldo, eu, Vanzolini e duas moças da faculdade de zoologia. Fomos em dois barcos, um barco a motor e outro que era o laboratório do Vanzolini, um barco rebocado. Porque ele tinha que examinar bichos, então tinha que ter microscópio e o barco não podia tremer. Ele estudava os bichos nesse barco.

Eu tinha muita vontade de ir para lá, era uma oportunidade muito interessante para conhecer essa região. Havia estado em Manaus muitos anos atrás, meu filhos eram pequenos, nós fomos de avião, e Manaus naquele tempo nem luz elétrica tinha. Eles tinham um gerador que era ligado em horários determinados. Lembro-me que a cerveja custava mais do que a gasolina, lá tinha uma extração de gasolina, mas a cerveja vinha de longe.

Mas a cerveja era gelada?

Claro, era gelada por que de dia felizmente tinha energia.

As imagens da exposição vão até 1974?

O material que tem lá é do rio Negro e de Salvador. Passei pela Bahia no meu retorno de Manaus, minha família estava lá, foi na época do Carnaval. Fotografei essa cena, que está na exposição.

Como foi seu encontro com o cineasta Geraldo Sarno, com quem fez o emblemático Viramundo?

Quando começamos a fazer filmes, ele tinha vindo da Bahia. Lá, havia muita perseguição na época da ditadura. Ele e o Paulo Gil (Soares) saíram para vir a São Paulo, que era mais tranquilo. Eu quis trabalhar com eles porque já estava formando um grupo para fazer filmes documentários.

Para formar esse grupo, o senhor teve alguma influência do Cinema Novo, de filmes como Aruanda ou Arraial do Cabo, que representam experiências seminais no documentário brasileiro?

Não. Conheci esse filmes, mas a idéia era outra. Naquele tempo, todo jovem era de esquerda, usava barba cumprida, andava com a máquina fotográfica pendurada. Eu estudava na Escola Politécnica, em 1946 e 1947. Nessa época é que se começou a pensar em fazer filmes revolucionários.

O Eduardo Coutinho havia ido para o Nordeste, foi perseguido. Eu disse: bom, não vamos agora nos meter numa aventura complicada. Mas chegamos à conclusão de que poderíamos fazer filmes para escolas, que com isso poderíamos mostrar o Brasil para os brasileiros. Queríamos fazer filmes para escolas. A televisão, naquele tempo, era diferente. Não havia filmes que mostrassem essas situações. Eu achava que mostrando como é que vive o pessoal do Rio Grande do Sul para o pessoal do Nordeste, e ao contrário, seria tão revolucionário quanto fazer um filme sobre as Ligas Camponesas. E foi o que começamos a fazer.

O plano era fazer 100 filmes e mostrar para as escolas. As escolas não puderam pegar os filmes porque você tinha que levar um projetor para a sala de aula, uma tela, um alto-falante, a colocação do filme no projetor é algo muito complicado. A idéia também não agradou muito aos professores, eles achavam que íamos substituí-los com os filmes.

A TV Cultura também não quis mostrar as produções, alegaram que havia muita miséria nos quatro primeiros (Viramundo, Subterrâneos do Futebol, Memória do Cangaço e Nossa Escola de Samba). Eu disse a eles: não é miséria, é a maneira como as pessoas vivem.

No total, quantos filmes vocês produziram?

Foram uns 30. Mas encerrou-se a caravana, porque não havia saída para os filmes.

Quem apelidou essa experiência de Caravana Farkas?

Isso foi o (Eduardo) Escorel que inventou. Veja, a fotografia é uma atividade de uma pessoa só. O fotógrafo trabalha sozinho. Cinema tem sempre três ou quatro: o que guia o automóvel, faz o som, o diretor...

O livro que a editora Cosac Naify vai publicar é uma revisão desse período?

Esse livro é da exposição. Além disso, colocaram uma linha cronológica. Tem texto também.

Você publicava as fotografias que fazia durante as viagens?

Não. Eu não sou nem profissional nem amador da fotografia, sou um extra. Nunca vendi, nunca trabalhei profissionalmente com fotografia porque trabalhava na (rede de lojas de fotografia e óptica) Fotoptica. Eu tô no meio disso tudo, sou um marginal da fotografia.

Então as fotos da exposição nunca haviam sido mostradas?

Não. Porque isso ficou parado numas caixas que eu tinha. Eu estava mexendo, meus filhos viram e se empolgaram. "Vamos publicar", diziam. Eu peguei um monte de caixas, escolhi umas 200 imagens e chegamos às que estão na mostra. Trabalhamos não para ser uma mostra de arte. Não sou um artista, sou fotógrafo.

Mas o fotógrafo pode ser artista.

Se alguém chamar de artista, pode ser artista. Agora, eu sou fotógrafo. Mas tem fotógrafo que se chama de artista.

De qualquer forma o senhor é apontado como um dos inventores da fotografia moderna brasileira.

Mais ou menos. Eu e mais uns dois ou três, não estou sozinho. Não sei se isso é arte ou não, essa é uma outra discussão.

O senhor voltou à Hungria?

Voltei duas vezes, uma delas em uma excursão, fui ver como é que era lá. Mas era a época em que o país ainda vivia sob o regime comunista. Na segunda vez, o muro de Berlim ainda existia. Depois eu nunca mais voltei. Mas vou lá de novo. Não tenho mais ninguém naquela terra, mas quero voltar porque gosto muito das comidas. A comida húngara é fantástica, disso eu não esqueço.

Qual a opinião do senhor em relação à tecnologia fotográfica digital, que também popularizou os meios de produção documental?

Certamente há mais trabalhos sendo feitos. Para cinema não é tão mais barato porque para mostrar o filme em salas de cinema é preciso fazer um processo de transferência do digital para o filme, o que também é caríssimo. Agora, há grandes passos de popularização da fotografia. Primeiro foram as câmeras automáticas, agora é a digital. Você não vê ninguém sem máquina. O que vai se gerar disso nós ainda não sabemos.

Veja, para fazer as ampliações que estão expostas na Pinacoteca, foi usado um escaneamento eletrônico porque a fotografia era pequena. Tínhamos que ampliá-las para grande dimensões. Não entendo como foi feito isso, nem sei usar o computador direito. O que sei é que para mim a fotografia tem que ser sobre papel, o que não quer dizer que não possa passar pelo digital.

Quanto ao documentário brasileiro, o senhor tem acompanhado as produções mais recentes?

Algumas coisas sim. Tenho ido menos ao cinema agora, mas sei que tem muita coisa nova boa. Isso vai se estendendo, acho uma coisa maravilhosa. Porque o olho do mundo é a fotografia. E o cinema. O mundo se vê pela fotografia e pelo cinema. Pela fotografia de uma maneira, pelo cinema já de um jeito fantasioso, inventado, ficcional. Pelos documentários, não. Documentário é obra autoral. Sempre é a visão do diretor, pode até não ser verdade, mas é a visão dele. Quem manda no documentário é o diretor, é a visão dele, que pode ou não ser verdadeira. O que é a verdade? Essa já é outra questão. A fotografia é o olho do mundo, você vê a importância dela nos jornais, no espaço que ela ocupa.

Quais os fotógrafos que o senhor mais gosta?

Aqui no Brasil tem mais de 20 fotógrafos excelentes. Mas o mundo é dividido entre a América do Norte e a Europa. Ou seja, os fotógrafos são conhecidos quando estão nesses lugares. Dos brasileiros tem quatro: Miguel Rio Branco, Mario Cravo, Sebastião Salgado e Vic Muniz. São esses que aparecem. A fotografia brasileira é muito importante. Não só a jornalística. Infelizmente ela não é conhecida no mundo, mas será.

Grandes trabalhos fotográficos são feitos em viagens, como o histórico ensaio The Americans, de Robert Frank, ou mesmo essa série que o senhor está expondo na Pinacoteca. Qual a importância do olhar estrangeiro na fotografia?

A gente conhece as coisas. Você chega em um lugar e pode residir, ter uma visão. Ou ser de lá, e terá outra visão. Talvez elas não combinem, mas são uma justaposição, uma o complemento da outra. Isso é muito interessante. Pode ser que o olhar externo revele coisas que não se vejam quando você está incluído naquele espaço. Há muitos anos lembro-me de uns americanos que vieram documentar o Brasil e fizeram um trabalho interessante, mas não é completo. Você pode ser de fora, mas as duas visões têm que estar presentes.

Atualmente o senhor fotografa?

Tenho fotografado mais as minhas viagens. Fiz imagens na Rússia. Há pouco tempo fui à Toscana, na Itália, e fotografei, mas é pouca coisa. Não vai dar uma exposição. Fotografo mais a minha família, a criançada, meus netos e bisnetos. É isso aí.