Apoio às rádios e TVs comunitárias
Claudia Jardim, de Caracas (Venezuela)

Manhã de segunda-feira, véspera do Dia da Independência da Venezuela, conquistada em 5 de julho de 1911. O taxista Tony Julio dirige em meio ao caótico trânsito da capital Caracas. A programação de umas das rádios locais o acompanha. "Hoje, também temos que comemorar. É Dia da Independência", comenta uma das locutoras, em alusão ao 4 de julho estadunidense. Tony Julio se indigna. "Por isso, ninguém acredita no que esses jornalistas dizem. Vivem aqui mas pensam que são gringos".

Esta pequena cena da vida cotidiana reflete a atuação dos meios de comunicação venezuelanos. Nos quatro cantos do país, ouve-se a falta de credibilidade que resultou do golpe midiático de abril de 2002. "Os meios de comunicação tomaram o lugar dos partidos políticos e esqueceram do principal: a informação. Tudo que fazem tem como fim derrubar o presidente, mais nada", comenta Tony Julio.

Diante desse cenário, o presidente venezuelano Hugo Chávez, passou a estimular a criação de rádios e televisões comunitárias. A Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) entregou mais de mil concessões de rádios comunitárias ou livres, nesse esforço de contra-atacar a força dos meios de comunicação privados, que detêm o controle de 90% do espaço radioelétrico venezuelano.

Outra iniciativa do governo, que se estendeu a âmbito continental (veja reportagem abaixo), foi a ofensiva televisiva com os canais de televisão estatais. Nesse sentido, o lema de uma das principais TVs comunitárias do país passou a ser regra quando o assunto é reiventar a maneira de fazer televisão: "Não veja TV, faça-a", divulga a Catia TV, criada pela jornalista Blanca Eeekhout, hoje à frente da presidência dos dois canais estatais.

Há 18 meses, surgiu a Vive TV. Um novo canal público, de caráter educativo, cultural e informativo que tem como missão dar voz à população ignorada durante anos pelas telas dos grandes meios comerciais. O vice-presidente do canal, o jornalista Thierry Deronne, explica que a Vive nasceu para ser umas das "ferramentas de consolidação" da revolução bolivariana: "O povo venezuelano com suas organizações sociais está resgatando um espaço que sempre lhes pertenceu e que o capitalismo historicamente havia roubado".

Responsável pela criação da Escola Latino-Americana de Cinema, que hoje funciona no interior de Vive, Deronne explica em uma das oficinas de linguagem audiovisual o conceito de TV que se pretende criar. "Estamos tratando de construir uma TV pública revolucionária, feita pelo e para o povo, capaz de romper os modelos comerciais de fazer televisão imposto durante décadas".

PARTICIPAÇÃO POPULAR

Pelos corredores do canal, é corriqueiro encontrar pequenos grupos formados por motoristas, faxineiros, vigilantes e jornalistas que se aventuram a aprender a manusear uma câmera ou a operar uma ilha de edição. A formação ocorre na Escola de Cinema, onde dezenas de jovens da periferia aprendem a fazer televisão sob o conceito da participação popular.

Hoje, parte desses jovens produz o "Noticiero del Cambio" (Noticiário da Mudança), um dos programas mais contundentes no que se refere à crítica ao Estado. "Não podemos maquiar a realidade, caso contrário, estaremos debilitando o processo revolucionário. Com o exemplo das comunidades organizadas, vamos avançando na tomada de consciência", afirma Luis Ortuño, de 25 anos, um dos produtores do programa.

O conceito da Vive - uma grande TV comunitária - é alterar a maneira paternalista de contar uma história. Os trabalhadores da fábrica de papel Invepal, tomada pelos operários depois de decretada sua falência, durante uma semana participaram de oficinas de capacitação audiovisual e de linguagem de documentário. Nesse momento, foi criado o Noticiero de los Trabajadores. Nesse espaço, os próprios operários gravam as assembléias onde tomam decisões, contam parte de seu cotidiano e os desafios que têm enfrentado para recuperar a produção da fábrica, operada em modelo de cogestão com o Estado.

Um conselho social, integrado por representantes dos movimentos sociais e das comunidades organizadas, se reúne quinzenalmente no Canal com os coordenadores de cada unidade de informação para avaliar e opinar sobre a linha das produções.

Rede TV Sul e a rebelião das antenas no continente
Jorge Pereira Filho, do Brasil de Fato

A partir do dia 24 de julho, os latino-americanos poderão conhecer seu continente sem ter como intermediárias as redes de televisão do Norte. Mais que isso, terão a possibilidade de produzir e difundir sua própria visão de mundo, quebrando o monopólio dos grupos empresariais que dominam a comunicação intercontinental, como a estadunidense CNN.

Nessa data, começará a ser transmitida, em caráter experimental, a Rede TV Sul (ou TeleSur, em espanhol), um projeto gestado pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, com apoio de outros governos da América Latina - a Venezuela entrou com 51% do capital inicial da TV Sul, enquanto a Argentina respondeu por 20%, Cuba por 19% e Uruguai, 10%. Já o Brasil está em vias de assinar um acordo operativo com a nova rede de televisão (veja reportagem abaixo).

DESIGUALDADE

Um dos objetivos da TV Sul será se opor à desigualdade da produção da informação. De acordo com a pesquisadora Ana Delicado, das 300 maiores agências de informação, 144 são dos Estados Unidos; 80 da União Européia e 49 do Japão. Já os países pobres, do Sul, apesar de abrigarem 75% da população da Terra, controlam apenas 30% da produção de jornais. "Eduardo Galeano dizia que levamos 513 anos para nos vermos com olhos alheios. É da urgência de nos enxergamos com nossos próprios olhos e dar soluções próprias a nossos problemas que nasce o projeto", explica o uruguaio Aram Aharonian, diretor do canal. Não por acaso, o lema da emissora será "Nosso Norte é o Sul".

Outro desafio do novo canal de televisão é disputar, em caráter massivo, com a orientação conservadora dos meios de comunicação empresariais. "Será uma programação de combate, com um jornalismo para desvendar os mistérios da exploração, para desmascarar a manipulação informativa da mídia capitalista e também para mostrar nossa história, a brava história dos povos latino-americanos, nossa música, nossa dança, nossa cultura, nosso talento", explica Beto Almeida, diretor da TV Sul, em comunicado distribuído dia 1º.

REBELIÃO

Daí, a importância de se construir uma rede de apoio para potencializar o espaço criado pela TV Sul. O projeto prevê parcerias com TVs comunitárias, educativas, universitárias, produtores independentes. "Que escapemos do cerco da CNN, das grandes empresas de mídia que deformam e insultam a luta dos nossos irmãos bolivianos, do povo venezuelano que está prestes a erradicar definitivamente o analfabetismo, do bravo povo cubano que envia milhares de médicos e professores para promover vida e dignidade em vários cantos do mundo. Queremos conhecer verdadeiramente o que ocorre com a luta dos irmãos zapatistas no México, do nosso povo irmão explorado dos EUA, queremos uma televisão sem baixarias, sem culto ao consumismo ou à violência", define Almeida.

Em seu comunicado, o diretor da TV Sul pede a solidariedade dos movimentos sociais, dos sindicatos, das rádios livres, dos estudantes e de toda a sociedade civil para viabilizar a instalação do maior número possível de antenas parabólicas para captar o sinal do novo canal (veja como fazer isso no quadro abaixo). Almeida pede também apoio para que o maior número possíveis de TVs comunitárias possam retransmitir o ato de nascimento da TV Sul.

O sinal da nova rede de televisão estará disponível, gratuitamente, e poderá ser captado em qualquer lugar do continente americano, uma parte da Europa e o Norte da África. As transmissões serão bilíngües, em português e espanhol, e pretende-se também incluir o inglês.

Para acompanhar a programação da TV Sul:
- Instale um receptor digital de satélite e uma antena parabólica (custo estimado de R$ 950)
- Sintonize no satélite NSS 806

Ou então assistir:
- às TVs comunitárias que assumirem o desafio de retransmitir o sinal da TV Sul (como a TV Comunitária, do Distrito Federal)
- à TV Educativa, do Paraná, que reproduzirá partes da programação.
Mais informações: (61) 3343-2713

TV Brasil: mais uma opção
Bel Mercês, do Brasil de Fato

Em paralelo ao surgimento da TV Sul, o Brasil trabalha também na criação de um canal de televisão voltado para a América do Sul. O novo projeto, batizado de TV Brasil, está em andamento na empresa pública de comunicação do governo, a Radiobrás.

De acordo com Eugênio Bucci, presidente da empresa, a TV Brasil já estava em um curso adiantado no qual não se podia mais abrir mão, quando se tomou conhecimento da iniciativa da TV Sul. "Mas o nível de cooperação entre as emissoras é total. Houve inclusive uma proposta da Telesur para um convênio com a Radiobrás, que deve sair em breve. E o Brasil certamente vai participar, mesmo sem ser um dos sócios", garante.

A TV Brasil, um canal de notícias e programas brasileiros e latinos, é resultado de uma ação conjunta dos três poderes do Estado: Executivo, Legislativo e Judiciário. Em fase de implementação, sua programação será, em princípio, transmitida a partir da parceria com outras emissoras do continente. O Conselho Consultivo - que gerencia a TV Brasil e é formado por seis órgãos da União (Radiobrás, Senado, Câmara, Secretaria de Comunicação, Supremo Tribunal Federal e Itamaraty) - tem visitado outros países em busca de possibilidades de acordos e negócios, como a troca de programas com emissoras locais.

A TV Brasil já conta com dois históricos de produção e transmissão experimental. A primeira ocorreu no 5º Fórum Social Mundial, realizado em janeiro deste ano em Porto Alegre, e a segunda durante a Cúpula América do Sul-Países Árabes, em maio, em Brasília. A previsão para estréia oficial é entre o final de 2005 e começo de 2006. Bucci garante que "o grande esforço, agora, é colocar a TV Brasil no ar".

A idéia do projeto surgiu durante uma viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assim que assumiu o cargo. Na ocasião, o senador pelo Amapá José Sarney contou-lhe sobre uma antiga idéia que tinha: um canal de televisão brasileiro na América Latina. Lula gostou e, em abril de 2004, transformou- o em decreto presidencial. Segundo Bucci, um projeto como esse, que visa a integração do continente, é essencial. "Existe um espaço público internacional que nasce na América do Sul, e isso significa que haverá uma arena de trocas muito grande, que requer meios de comunicação para construir aos poucos essa estrutura." Ele acredita que o "sonho de integração do continente vai se tornar realidade via a comunicação". A TV Brasil poderá ser assistida, no Brasil e nos outros países, por canais de assinatura ou via satélite. A língua oficial será o espanhol, e os programas em português devem ser legendados.