Terra Desmadrada
O filósofo argentino León Rozitchner faz uma análise acerca do embate entre Argentina e Uruguai sobre a construção de uma indústria de celulose finlandesa, a Botnia, às margens do rio Uruguai. Os argentinos opõem-se vilmente ao projeto, alegam que ele fere o tratado de soberania assinado por ambos paises em 1975 e que estabelece que qualquer obra sobre o rio deva ser de comum acordo. O movimento cidadão de Gualeguaychú bloqueia há mais de 6 meses a fronteira local, onde há uma ponte que leva a Fray Bento, no lado uruguaio. A população da cidade diz que a poluição inevitável da indústria trará danos irreversíveis ao lugar. Os uruguaios, por sua vez, comemoram o suposto progresso que a obra trará ao pais e defendem-se dizendo que na Argentina, no rio Paraná, há diversas indústrias semelhantes.
Como você entende a questão diplomática envolvendo Argentina e Uruguai em torno da instalação da indústria de celulose finlandesa, a Botnia, às margens do rio Uruguai?
Isso faz parte do projeto neoliberal na América Latina, onde nossos países enfatizam sua posição como produtores de bens primários. Na Argentina isso ficou muito claro na política econômica posta em pratica pelo governo militar já em 1976, durante o genocídio que houve. Tomaram o poder com o objetivo de fazer desaparecer a classe operária, que era forte e atuante nesse momento, liquidaram a indústria e priorizaram no país a exportação de bens primários. Somos importadores de alta tecnologia e produtores e exportadores de produtos primários. E o mesmo ocorre no Uruguai que agora irá plantar imensas quantidades de eucaliptos para vender a pasta (de celulose) como matéria prima. Mas o papel será produzido em outro pais. O lixo fica e a força de trabalho necessária não requer nenhuma capacidade aprimorada e nem elaboração. Tabaré Vázquez tomou o poder em nome de desenvolvimento mas procura alcançá-lo de acordo com as demandas neoliberais e não de acordo com os ideais revolucionários que caracterizaram sua trajetória política. De cara ele não se preocupou com os Direitos Humanos e deixou de lado as questões relativas aos assassinatos promovidos pelos militares. E aos pouco foi se entregando a todas as propostas que vieram os Estado Unidos. Isso também se relaciona com o fato do pais encontrar dificuldades dentro do próprio bloco do Mercosul, onde sempre foi mero coadjuvante. O curioso é que um ano antes de se eleger, ainda como deputado, Vázquez fez um discurso formidável contra as papeleras (papelera em espanhol significa lixeira, lixo. Papelera é a maneira como os argentinos chamam as indústrias de celulose) onde apontava todo o risco que elas representam para o país, para o meio-ambiente e para a economia também. O fato de ele como presidente não manter a posição que tinha como candidato revela evidentemente como o poder político é comprado pelo “grande capital”, uma vez que ele inclusive contava com o apoio da população para desenvolver políticas diferentes às que executa hoje em dia. Porém, é importante ressaltar que na Argentina nós temos problemas que talvez sejam mais graves do que os que serão produzidos pela papelera no Uruguai. Temos aqui diversas papeleras de menor porte de produção, mas que também contaminam e até hoje ninguém havia se preocupado por isso. O rio Tigre, que desemboca no rio Luján, é um verdadeiro depósito de imundices, uma sopa espessa horrível, que atravessa cidades inteiras e tem em sua bacia uma grande quantidade de população e apenas agora começa-se a pensar a respeito, sem que se solucione nada. Isso sem falar no crescente crescimento da exploração mineira no pais. Ah, vale lembrar que a exploração do papel aqui é dominado pelos dois granes jornais, o “Clarín” e “La Nación”, que se apoderaram dessas concessões a partir do governo militar de 1976. Então, quando discutimos o problema do Uruguai precisamos discutir a totalidade do problema e não ficar apenas referindo-se a este fato isolado, que sim é muito negativo, mas deveria servir de impulso para rever uma política que é muito mais ampla, é de submissão e desprezo por parte do poder político, econômico, religioso e da mídia pelas riquezas de nossos povos.
Qual é a relação entre Direitos Humanos e Recursos Naturais?
Estamos falando de pátria não é? Eu, por exemplo, supostamente sou argentino. O solo da pátria, a geografia, seus Recurso Naturais delimitam o espaço que nos reconhece como cidadãos argentinos. Então há uruguaios que se levantam e dizem que permitir que em seu espaço geográfico se instale uma indústria como a Botnia é um direito soberano, quando na verdade a propriedade das terras uruguaias está nas mãos de grupos poderosos que são os donos das terras onde trabalham os poucos uruguaios que ainda têm essa possibilidade. Eles foram expropriados do espaço terreno da pátria, assim como nós os argentinos. O que quero dizer é que o grande problema do meio-ambiente e dos recursos naturais não é a fumaça que polui e incomoda, mas o que se faz com a terra que deveria nos pertencer e que nos foi expropriada. Esta terra pela qual devemos morrer pela pátria quando se vai à guerra, por exemplo, mas que quando se está vivendo como cidadão não se tem nenhum direito sobre ela. Na América Latina nós os habitantes somos constantemente expropriados de nossas próprias terras. É justamente por isso que o problema da defesa da terra aparece com mais força nos paises que têm raízes fortes no período anterior à colonização. Nos países onde a Pachamama era uma deusa era fértil, a deusa da procriação, onde a força espiritual não era Cristo pendurado na cruz por ser um resistente, nem a virgem Maria, uma mãe que nunca copulou com um homem, e portanto não conhece o prazer, uma mãe “desmadrada”. Essas imagens formam o imaginário, o fundo mitológico de nossa cultura. A mitologia e a cultura dos povos aborígines se relacionam ao fato de que hoje são eles que se levantam para defender a terra, enquanto nós circulamos pela categoria abstratas do capitalismo de um pais que colonizamos excluindo os índios e os negros e ocupando território através da colonização e depois com a independência e sua criação patriótica, que na verdade foi a entrega de grandes extensões de território a poucas pessoas que hoje são justamente os que controlam o pais.
O que representa o bloqueio da fronteira entre Argentina e Uruguai, que já dura mais de 6 meses?
São experiências que revelam a ponta de um iceberg, de um problema muito maior. Os meios de comunicação estão em mãos do poder econômico, a política está a serviço do poder econômico, as pessoas estão embrutecidas pelo terror e porque não podem pensar, já que estão dia-a-dia cuidando da sobrevivência, e não podem ver neste problema pontual de Gualeguaychú a imensa dimensão que ele tem. Ou é possível pensar que esse tipo de ação não tem nada a ver com as mudanças climáticas que ocorrem atualmente? Não tem nada a ver com a destruição da natureza? É que para o capital a natureza é simplesmente um meio para se obter ganhos quantitativos, a destruição da terra não importa nada. E esse é um conceito cristão. O cristianismo separa o corpo da alma. O corpo é perecível e não tem valor, e o que se privilegia é a eternidade e o além. Ao depreciar de tal forma o telúrico, o terreno e o corpóreo criou-se o fundamento para o desenvolvimento do capital. É a partir da perda do valor da relação corpórea da terra com os homens que o capital passa a quantificar tudo a partir do desenvolvimento científico, que é a concepção matemática e técnica dos fenômenos humanos. É apenas de forma matemática que pensamos os problemas sociais. Nenhuma outra cultura produziu a concepção capitalista que vive o ocidente cristão.
A grande riqueza latino-americana são os recursos naturais?
Sim, e é terrível! Foi necessário o terror e as ditaduras em todo o cone sul para se seguir distribuindo nossos bens. E o que os militares não conseguiram fazer, está sendo feito pelos governos que os sucedem. Dessa forma a Argentina vendeu o petróleo, o gás, a eletricidade, todas suas minas, as empresas nacionais, aqui tudo foi privatizado. E o mais complicado é que os povos aceitam isso. Penso eu que só aceitam porque previamente o terror penetrou e dominou a vontade das pessoas separando todos nossos laços sociais. Dissolvendo também nossa capacidade de pensar. Capacidade de pensar que agora se expressa na miséria que são nossos meios de comunicação, nossos jornais, que são porta-vozes dos interesses do capital, e principalmente a televisão que é uma estupidez e que é assim não apenas na América Latina, na Europa também é uma imbecilidade completa com musiquinhas, dancinhas, reboladinhos... Tudo isso nos ajuda a não pensar na vida cotidiana e no rumo de nossa sociedade.
Outra coisa impactante é transformação sofrida pelos líderes de esquerda. É repugnante acreditar que uma idéia revolucionaria encontre algum tipo de atuação através de postos em nossas atuais engrenagens políticas. Isso é uma loucura. São grupos políticos que sofreram a marca do tempo, da derrota, que obviamente não foi produzida por eles, não veio da esquerda. Mas, agora quando aparece um apoio real à esquerda, como acontece hoje no Uruguai e mesmo aqui na Argentina, aparece um cara como o Vázquez que reverte tudo. Todos esses políticos supostamente de esquerda que subiram ao poder, nenhum deles recorre ao poder coletivo não solicitam o apoio popular. Kirchner não solicita apoio do povo para nada que faz, mas solicita apoio de grupos tradicionais de nossa política. O povo não participa de forma alguma. As pessoas participam apenas votando e legitimando os cargos, nada mais. Há que fazer ressalva apenas a Chávez, que graças à condição dada pela formidável riqueza que a Venezuela tem, dá volta à imensa pobreza que assolava sua população. Gostem ou não dele, ele está fazendo uma política própria e diferente dos demais paises da região. Temos que lembrar também dos paises aborígines como a Bolívia e o Equador, que tem poderes surgidos de baixo pra cima e que quando precisam solicitam apoio popular.
por Pedro Dantas
|