Negroponte participou da "guerra suja" latino-americana
Newton Carlos especial para a Folha de S. Paulo (FSP, 18/02/05)
O escolhido por Bush para chefe de inteligência nacional dos Estados Unidos, John Negroponte, pertence ao grupo que se envolveu diretamente na "guerra suja" na América Central, nos anos 80. Além de Negroponte, Elliot Abrahms, Otto Reich e Roger Noriega. Não se sabe com que espécie de credencial Abrahms conseguiu o cargo de encarregado do Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional. Ele comandou o contrabando de armas que incendiou países centro-americanos e ficou conhecido como o escândalo Irã-Contras.
Envolveu negociações secretas com os iranianos, o que significou violação de leis americanas a partir da Casa Branca. Talvez Reagan não escapasse de processo no Congresso se Abrahms não assumisse culpas. Ficou como se Reagan não soubesse o que se passava nos porões das operações que resultaram na criação dos "contras" e na guerra contra o regime sandinista da Nicarágua. Ainda hoje são localizadas vítimas em valas comuns de cobertura rarefeita.
John Negroponte foi embaixador em Honduras de 1981 a 1985. Nessa época, Honduras se tornou base militar americana em plena América Central e campo de treinamento e de infiltração dos "contras" nicaragüenses. A Embaixada dos EUA funcionava como elo com o governo hondurenho. Dava ordens, cobrindo várias atividades, como construções de instalações militares e organização de operações de preparação de tropas americanas e dos "contras". Honduras foi chamada de porta-aviões dos EUA.
O "New York Times" citou Negroponte como responsável pela execução, "na surdina", da estratégia do governo Reagan visando a derrubar os sandinistas do poder na Nicarágua. O que incluía encaminhar dólares, por baixo do pano, aos "contras". Na turma também estava Otto Reich, cubano de nascimento. Nos anos 80, Reich ficou à frente de operações catalogadas como de "diplomacia pública". Nada mais do que "plantar", inclusive em jornais americanos, informações fabricadas e por meio delas mostrar uma Nicarágua à imagem de Cuba.
Justificar o grito de Washington de que o comunismo "não passará". Reich sofreu punição judicial com suas mentiras montadas em dependências do governo americano. Foi perdoado por Bush pai e reabilitado por Bush filho. Ocupou primeiro o cargo de encarregado da América Latina no Departamento de Estado. Como seu nome não conseguia aprovação no Congresso, Bush transformou-o em "enviado especial" a países americanos, mas, quando ficou claro que o veto parlamentar não cairia, Reich reincorporou-se à vida privada ajudando Bush eleitoralmente.
Em seu lugar, como encarregado da América Latina no Departamento de Estado, ficou o companheiro Roger Noriega, filho de mexicanos. Pensam igual.
Newton Carlos é jornalista e escritor