Bolívia: a iminência da virada de Mesa
Por Pedro Dantas

Após uma semana de instabilidade política, carta de renúncia do presidente e sua subseqüente permanência no cargo, ao lograr estabelecer um pacto de governabilidade com o Congresso Nacional, o panorama político na Bolívia continua marcado pela não representação dos anseios populares por parte do Estado, manifestações em todo o país e incertezas quanto ao futuro.

As principais forças de oposição não aderiram ao pacto de governabilidade articulado por Mesa. Os manifestantes mostram-se firmes e dizem estar preparados para enfrentar até uma possível tomada do poder pelos militares. “Que venha o estado de sítio, que venham os militares”, são as palavras de Jaime Solares, Secretário Executivo da COB (Central Operária Boliviana), onde pela primeira vez em muitos anos estiveram juntos os principais dirigentes indígenas, camponeses, mineiros, professores, cocaleiros e operários.

O método utilizado pelos manifestantes é o mesmo observado nos primeiros piquetes argentinos e no Peru, e que se mostra o mais eficiente para que as reivindicações não ecoem ao nada: o bloqueio de estradas estratégicas do país. A reivindicação é objetiva e pontual. Querem que o Congresso aprove a cobrança de 50% de royalties sobre a produção de gás e petróleo e a nacionalização dos direitos à exploração, o que significa recuperar a propriedade sobre os poços.

As manifestações desta semana na Bolívia marcam a primeira ação conjunta entre o líder do MAS (Movimento ao Socialismo), Evo Morales, e Jaime Solares. Isso traz força aos protestos e obriga o remanescente presidente Carlos Mesa a pisar em ovos. Ele recusa usar a força para desbloquear as estradas – duas na região de La Paz e El Alto, outra entre Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra, e outra em direção à cidade mineira de Oruro. Haveria também mais 20 bloqueios na região de Chapare, que é o reduto de Evo Morales.

Além de convocar a população a realizar protestos contra os protestos, Mesa acusa Evo Morales, o deputado e líder cocaleiro, dizendo que ele está bloqueando a Bolívia. O dirigente é enfático em suas afirmações e, desde o pedido de renúncia de Mesa, vem trocando farpas com ele.

O jornal boliviano La Razón reiterou na edição de sexta-feira seu apoio ao presidente. Estampou matérias que mostravam os presidentes Lula e Ricardo Lagos, do Chile, apoiando a permanência de Mesa no poder. O Brasil tem enorme interesse na região, já que a Petrobrás, cuja produção no país representa 15% do PIB boliviano, seria uma das principais atingidas se a lei de Hidrocarbonetos fosse aprovada. O Chile mantém relações difíceis com a Bolívia desde a Guerra do Pacífico (1879-1883), quando tomou sua saída ao oceano Pacífico, território que hoje é a região chilena de Antofagasta. A Bolívia exporta seu gás por portos do Norte chileno.

“O pedido de renúncia é uma chantagem política, fruto de seu desespero e sua incapacidade de resolver os problemas do país. Isso porque ele é um grande defensor do modelo que causa tanto dano à Bolívia, o modelo da capitalização e da privatização. É o próprio presidente quem está obstruindo a votação da lei de Hidrocarbonetos, bloqueio que na verdade é feito pelo FMI e pelo Banco Mundial”, afirma Morales que, na quinta (10/03), acompanhado de Jaime Solares, se reuniu com Mesa. Não houve acordo e o líder dos plantadores de coca promete intensificar as manifestações pelo país.


Fontes:

O Estado de S. Paulo; La Nación, Chile; Página 12, Argentina; La Razón, Bolívia.